quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Fantasma do IAPETEC

Hoje em dia  virou até modo se queixar não só do Brasil como do próprio fato de ser brasileiro e , infelizmente , os fatos dão razão à isso : esquemas cada vez mais complexos e sofisticados de corrupção , uma classe política completamente desacreditada e alheia à realidade da população , superfaturamento de obras públicas , uma população cada vez mais alienada e ignorante ......, enfim a lista de coisas ruins é gigantesca mas um morador de algum daqueles pequenos povoados perdidos no litoral brasileiro no remoto ano de 1548 com certeza não só discordaria como até diria que "estamos no paraíso " ......Talvez a carta que melhor resume a situação em que o Brasil há quase 5 séculos atrás tenha sido escrito por um obscuro cidadão chamado LUÍS DE GÓIS ( nem tão obscuro assim : era irmão de PERO DE GÓIS , proprietário da capitania de São Tomé , território equivalente hoje a maior parte do Estado do Rio de Janeiro e a uma pequena parte do Espírito Santo ) . Escrita em 1548 , era endereçada ao então rei português DOM JOÃO III ( 1521-1557 ) e seu conteúdo era o seguinte : "(....) se com tempo e brevidade Vossa Alteza não socorre a estas capitanias e costas do Brasil , ainda que nós percamos vidas e fazendas , Vossa Alteza perderá porque não está em mais de serem os franceses senhores dela " ......Para a árdua tarefa de 'botar ordem na casa " e ainda administrar um gigantesco desprotegido território , o rei não pensou duas vezes na hora de escolher o "cara " : o contemplado foi TOMÉ DE SOUZA ( 1503-1579 ) . Embora fosse filho bastardo e tivesse tido uma infância difícil , ele era parente de figuras influentes na corte portuguesa : era primo , por exemplo dos irmãos MARTIM AFONSO e PERO LOPES DE SOUZA , dois dos principais conselheiros do rei . Mas ele não era importante só por causa de seus parentes : era um competente navegador , um bom soldado e um bom estrategista militar , tendo obtido destaque em batalhas no Marrocos e na Índia . 

       Mas não foi apena isso que fez o rei escolhê-lo : ele era um sujeito daquele tipo extremamente sisudo , de pouca conversa e muita trabalho e falta de trabalho em terras tupiniquins é o que ele não teria .....Recebendo o polpudo salário de 400 mil-réis anuais , ele desembarcou na baía de Todos Os Santos ,  em 29 de março de 1549  , com poderes quase que absolutos e de vida e morte sobre os moradores da colônia , índios e escravos . Seguia um regimento assinado pelo rei em 17 de dezembro de 1548 , constituído de 41 artigos e que muitos historiadores consideram a primeira  "Constituição brasileira ", tomando como primeira média , óbvia , dar início à construção de uma cidade - a futura Salvador , capital do Brasil até 1763  - na mesma região em que desembarcou ( a região não era muito distante da Europa , permitia uma fácil repressão a uma possível invasão estrangeira , era um ótimo porto natural e ainda próxima das regiões produtores de açúcar , o então grande produto brasileiro de exportação ) . É claro que ele não veio sozinho : junto com ele vieram 200 soldados , 300 colonos , 400 réus degredados , um grupo de padres jesuítas , cabeças de gado e .......120 FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS E BUROCRATAS , ou seja os primeiros "BARNABÉS " da história do Brasil ! ( o termo "Barnabé " , usado de forma pejorativa para se referir aos funcionários públicos tem origem em uma marchinha de Carnaval de 1947 , composta pela dupla HAROLDO BARBOSA-ANTÔNIO ALMEIDA e cuja personagem era um funcionário público chamado Barnabé ) ......Orgulhosamente um Barnabé , hoje aposentado , o na crônica de hoje o irreverente HILTON GORRESEN relembra um pouco de seu tempo de repartição , mais especificamente de um bem humorado caso com a participação até de um ser vindo do Além .....CONFIRA : 

"Foi, nos seus bons tempos, funcionário do antigo IAPETEC ( órgão de aposentadoria dos

trabalhadores em transportes e cargas, um dos que foram unificados pela criação do atual

INSS - ABAIXO ) .


Solteirão ( ABAIXO - O SEGUNDO DA DIREITA PARA A ESQUERDA - HILTON GORRESEN EM SEUS ÁUREO TEMPO DA JUVENTUDE  ) , morando num quarto alugado, o serviço era seu amor, sua razão de vida. Era o mais

antigo da repartição ( o velho prédio de dois andares, com uma barulhenta escada de madeira,

era chamado de repartição ).

 No amplo espaço superior ( ABAIXO ) estavam espalhadas as mesas de verniz

gasto, com seu incrível arsenal burocrático: carimbos, tinteiros, mata-borrões, papel carbono,

estampilhas.

Numa mesinha ao lado, velhas máquinas de datilografia ( ABAIXO ) ou calculadoras de

manivela, tudo o que se chama hoje de 'vintage'.


Havia os funcionários quase fantasmas, condignamente representados pelos paletós no

encosto das cadeiras. ( ABAIXO )

Havia ainda – coisa rara na época – uma funcionária ( ABAIXO ) , apelidada, à boca

pequena, de Maria Candelária, como numa conhecida marchinha carnavalesca: aquela que

passava o expediente indo ao cabeleireiro, ao dentista, ao café...

Era casada com o atual

prefeito ( ABAIXO ) e teimava em fazer valer no serviço sua condição de primeira dama do município. Não

preciso dizer que o grosso do serviço sobrava para nosso personagem.


De postura séria e fleumática, como convinha, no seu entender, a um bom servidor público,

guardava no íntimo um pouco de sadismo ; era por isso que, como forma de protesto, colocava

algumas vezes na gaveta da servidora duas ou três repulsivas baratas.

 Era de ver o salto

acrobático realizado pela primeira dama quando resolvia abrir sua gaveta, façanha que ele ( ABAIXO )

acompanhava com um riso comedido.

Não queria se aposentar ; dizia, como em outra música

carnavalesca da época : ' daqui não saio, daqui ninguém me tira ' .

Mas, sem ninguém esperar, aquela senhora de negro e foice ( ABAIXO ) na mão providenciou seu

definitivo afastamento, com decreto em três vias, devidamente estampilhado e carimbado.


Fez muita falta na repartição, serviços começaram a se acumular, o chefão estadual pediu

explicações sobre os atrasos.

Dali a uns dois ou três meses, coisas estranhas começaram a acontecer no local : carimbos ( ABAIXO )

espalhados na mesa que lhe pertencera, arquivos de aço abertos, papéis carbono utilizados.


Um dia a Candelária foi abrir a gaveta e encontrou um camundongo ( ABAIXO ) a encará-la, o focinho

tremelicando.

 Até que uma hora – coisa incrível – ao chegarem de manhã à repartição, os

funcionários encontraram os serviços todos em dia, empilhados ( ABAIXO ) e esperando a assinatura do

chefe.


Dizem que isso ainda hoje acontece em alguns órgãos públicos. "

Nenhum comentário:

Postar um comentário