quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Grande Dia

Você já pensou o que seria do mundo caso não existissem os contestadores , os insatisfeitos , os irreverentes , os debochados , aqueles que ousam expôr as feridas abertas da sociedade , enfim , os " Maluco Beleza " ? Seria tudo muito chato , não é mesmo ? Um dos seletos sócios desse clube nasceu em Salvador - então capital do Brasil - e atendia pelo nome de GREGÓRIO DE MATOS GUERRA ( 1633-1696 ) .......Motivos para ser rebelde ? Aparentemente nenhum : ele era membro de uma rica família proprietária de um engenho de açúcar e estudou Direito , entre 1652 e 1661 na tradicionalíssima Universidade de Coimbra , tendo se radicado e exercido durante muito tempo sua profissão naquela cidade portuguesa ; portanto ele não tinha motivos para ficar se queixando .......Em 1682 , quando já era um conceituado jurista , enfim voltou a sua Salvador natal e lá exerceu o cargo de tesoureiro-mor da Sé ( a atual catedral metropolitana de Salvador )  sendo também ordenado clérigo tonsurado ( o nome vem do termo TONSURA , ou seja , um corte de cabelo em formato de coroa ) . Mas logo surgiu um problema : Gregório se recusou a usar batina , o que acabou lhe valendo a destituição do posto . Esse fato acabou revelando o lado rebelde , ou " bad boy " , daquele aparentemente pacato cidadão cristão-burguês e ao mesmo tempo em que exercia advocacia passou a se dedicar também à literatura , escrevendo principalmente poemas e que tinham fortíssima inspiração nos antigos  poemas greco-romanos  . Em uma sociedade agrária , atrasada , conservadora , puritana , com fortes resquícios medievais  e controlada por alguns poucos e poderosíssimos senhores , Gregório teve a ousadia de escrever textos satírico-eróticos retratando a sociedade baiana da época e denunciando os desmandos , a ganância , a hipocrisia e a busca de prazer pelos poderosos de plantão . E o que diria um poderoso ou algum pacato cidadão de Salvador ao ler versos como esses ? " O Demo a viver se exponha , / Por mais que a fama a exalta , / Numa cidade onde falta , / Verdade , honra , vergonha "..........
       Boêmio militante e inveterado , em virtude de seus textos e de seu modo de vida acabou ganhando o apelido de BOCA DO INFERNO ......Acabou pagando caro pela ousadia : em 1694 acabou sendo deportado para a então colônia portuguesa de Angola , o que era tido na época como algo terrível , quase um sentença de morte.......Acontece que o ousado poeta tinha as "costas quentes " : tornou-se amigo e conselheiro do então governador de Angola , HENRIQUE JAQUES MAGALHÃES , e em virtude dessa amizade e dos serviços que prestou acabou podendo retornar ao Brasil e viver seus últimos anos em Recife . Felizmente  , tanto a sua figura quanto principalmente as suas obras acabaram sendo salvos do esquecimento graças a textos apócrifos , ou seja supostamente escritos por ele mas muito provavelmente por admiradores de sua obra . Foi só em 1831 que pela primeira vez parte de suas obras acabaram sendo publicadas : por inciativa do padre JANUÁRIO DA CUNHA BARBOSA foi publicada uma coletânea com o quilométrico título de PARNASO BRASILEIRO OU CANÇÃO DAS MELHORES POESIAS DOS POETAS DO BRASIL , TANTO INÉDITAS COMO JÁ IMPRESSAS ( ô loco ! ) .......Gregório de Matos acabou sendo um dos grandes expoentes brasileiros de um movimento iniciado na Europa nas últimas décadas do século 16 , que se estendeu até fins do século 18 e que acabou estando presente e influenciando vários setores da sociedade : trata-se do BARROCO , movimento que teve como expoentes nomes de peso , como o pintor holandês REMBRANDT , o compositor e músico alemão JOHANN SEBASTIAN BACH e o escultor brasileiro ANTÔNIO FRANCISCO LISBOS , o ALEIJADINHO . Na crônica de hoje o irreverente HILTON GORRESEN não só comenta um pouco mais a respeito desse movimento como , cheio de saudosismo , mais uma vez relembra histórias de sua São Chico natal .....CONFIRA :


"A época do Barroco – com seu detalhismo artístico, suas imagens de santos sofredores e

anjos gordinhos ( ABAIXO , DUAS DAS FAMOSAS ESCULTURAS FEITAS EM PEDRA SABÃO POR ALEIJADINHO ) –, deixou como herança cultural todo um estilo de vida.

 Era uma época

na qual se cultuavam as aparências (culto levado hoje à exorbitância), os bons modos e

as modas exclusivas.( ABAIXO , ROUPAS TÍPICAS DO SÉCULO 18 )

 Época de contrastes, de Aleijadinhos ( ABAIXO , RETRATO DE ALEIJADINHO ) , de reis Luíses, de rapapés e

de perucas esbranquiçadas de talco.

Dentro dela, plasmou-se também o entrelaçamento

dos mundos mundano e religioso, que se manifesta hoje nas festas religiosas

e

populares, nos carnavais, com o luxo das fantasias e os carros alegóricos, e nas

procissões com imagens ( ABAIXO ) .


E por que iniciei meu texto com uma abertura tão ' pernóstica ' ? Acabamos de passar

pelas festividades de Páscoa ( ABAIXO , OVOS ARTESANAIS DE PÁSCOA )

e isso me leva à imagem de uma pequena cidade, com

igreja de características barrocas, imagens dramáticas, quadros entalhados nas paredes. ( ABAIXO , SÃO FRANCISCO DO SUL )


Missas solenes, cerimoniosas, com ambiente exalando a incenso.

Eu estudava num colégio de freiras.

Minha infância decorria entre lições de caligrafia,

silêncio e comportamento e a vizinhança com o sagrado. Havia uma parceria quase

centenária entre a escola e a igreja. ( ABAIXO , IGREJA MATRIZ DE SÃO FRANCISCO )

Nossa participação nas missas e nas procissões ( ABAIXO ) era

obrigatória.


Ainda hoje minhas lembranças exalam incenso e recolhimento. E todas elas sintetizam-

se na semana de Páscoa. A procissão de Sexta-feira Santa expulsava de casa a cidade

inteira. Até meu pai, caseiro e não muito adepto de religião, vestia seu terno de linho

branco, colocava o chapéu panamá e saia lampeiro às ruas.

Eram duas procissões que,

por caminhos diferentes, se encontravam na rua principal.  Numa delas, seguia o corpo

do Senhor, num palanque sustentado nos ombros pelos membros da associação mariana.

Na outra, seguia a ' Verônica '  que, ao se encontrarem os dois séquitos, mostrava o lenço

com o rosto sangrento de Jesus estampado, e cuja canção triste, diante do corpo morto ( ABAIXO ) ,

era o lamento dos cristãos.


No sábado de Aleluia, amanhecia um boneco de Judas no pátio da igreja. Debaixo de

pauladas dos moleques, o mísero Judas ( ABAIXO ) se destripava, escorrendo seu sangue de palha,

perdendo o pudor das vestes esfaceladas.

 E os moleques cantavam :

' É de biribiribiri, é de quáquáquá, bota fogo na giranda, deixo o nego vadiá '

( aposto que ninguém sabia o que queria dizer ' giranda '  ).


E finalmente chegava o dia mais esperado. No ambiente dramático e sinuoso do

barroco, a Ressurreição era uma cena renascentista. Mas, para nós, era o dia de procurar

a cestinha de chocolates. "

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